Hoje com 100 anos de idade e moradora de Porto Alegre, a polonesa Hertha Spier é uma das sobreviventes do Holocausto. As lembranças da época não são boas, mas ela conseguiu manter contato com uma voluntária que lhe alimentava no Gueto de Cracóvia, para onde foi levada aos 21 anos e ficou confinada. Durante as comemorações do aniversário dela, que ocorreram neste fim de semana na capital gaúcha, as duas se reencontraram.

Hertha nasceu em 15 de julho de 1918. Judia, vivia com os pais e quatro irmãos perto da fronteira com a Alemanha. Depois da invasão do exército nazista, foi confinada no gueto.

Com a idade avançada, a polonesa fala pouco. Mas em um episódio do projeto Histórias Curtas, da RBS TV, de 2011, ela contou detalhes do que viveu na Segunda Guerra Mundial. “Com tristeza nos olhos, meu pai disse: ‘Hertha, a partir de agora nossas vidas nao nos pertencem mais’. Meu pai falou isso”, lembrou, na gravação.

“Os pais foram tirados a força do gueto e assassinados a tiros nos bosques”, conta um dos filhos de Hertha, Lúcio Spier.

Prisioneira, a judia não passou somente pelo Gueto de Cracóvia. Foram três campos de concentração. Em Auschwitz, na Polônia, recebeu o número tatuado no braço: A21646.

“Minha mãe trabalhou na seleção das roupas dos prisioneiros. As pessoas que eram assassinadas vinham das cidades, escondiam joias e dinheiro nos forros. E eles matavam pessoas e tinham prisioneiros para tirar essas joias e esse dinheiro”, relata Lúcio.

Os irmãos de Hertha morreram. Quando a guerra terminou, ela era prisioneira no campo de Bergen-Belsen, na Alemanha, em 1945.

“Ela pesava 28 kg quando saiu do campo de concentração. O peso de uma criança, com 27 anos”, diz outro filho de Herta, Mário Spier.

Hertha foi socorrida pela Cruz Vermelha e passou um ano em um hospital de acolhimento das vítimas do Holocausto, na Suécia. Lá conheceu Kaisa Persson, uma jovem voluntária. Era ela quem alimentava a sobrevivente. As duas se reencontraram em 2003, e desde então mantêm contato.

 “Ela foi muito corajosa, se recuperou muito bem atá conseguir dançar novamente”, lembra Kaisa. O sonho de Hertha era ser bailarina. “Há algo expecial conosco. Eu não sei explicar”, acrescenta a amiga.

Depois de se recuperar no hospital, Hertha viajou para o Brasil. Casou e teve filhos. Ficou viúva e, depois, mais uma vez, reconstruiu a vida. A história dela virou um livro. Ela não se tornou a bailarina que sonhava ser, mas nunca abandonou a arte. Pintou flores, esculpiu dançarinas e os quatro irmãos perdidos na guerra.

“Graças a essa recuperação, essa volta por cima que ela consegiu fazer, é que chegou aos 100 anos, né?”, destaca Lúcio.

A festa do centenário, realizada neste domingo, reúne família e amigos em Porto Alegre. Os momentos de horror, hoje, estão no passado.

“Ela não armazena ódio, isso é muito interessante para o meu irmão e para mim, isso é exemplo de resiliência”, salienta Mário.

Fonte: G1

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