Foto: Integrantes do 202B. Pedro Cela (a esquerda), Saulo Tiago (meio) e Eduardo Cunha (a direita)
Foto: Integrantes do 202B. Pedro Cela (a esquerda), Saulo Tiago (meio) e Eduardo Cunha (a direita)

Um grupo de jovens que morava no apartamento de número 202b, dividia seus conhecimentos sobre cinema, fotografia, quadrinhos e desenhos. Esse foi o começo de uma parceria que hoje tem destaque em um dos grandes festivais de cinema de Portugal. O 202B vem desenvolvendo projetos que transitam entre o vídeo, fotografia e desenho e leva o nome do cinema do Ceará para o mundo. A produtora de Fortaleza é composta por Eduardo Cunha, Pedro Cela e Saulo Tiago alunos do Curso de Comunicação Social da Fundação Edson Queiroz e que já contam com três documentários, alguns

Foto: Divulgação/ 202B
Foto: Divulgação/ 202B

ensaios fotográficos e vídeos institucionais em seu portfólio.

 

Dentre eles, o documentário Becco Do Cotovelo ganhou, no domingo, 15, os prêmios PrimeirOlhar e PrimeiroOlhar/Cineclubes da 16ª edição dos Encontros de Cinema de Viana do Castelo, Festival de Cinema de Portugal.

O Sobral News conversou com Pedro Cela, um dos integrantes do grupo, que nos contou um pouco mais sobre o 202B, o processo criativo do documentário Becco do Cotovelo e o cinema do Ceará.

Sobral News: O nome 202B era o número de apartamento que vocês compartilhavam. Mas como surgiu a ideia de criar esse grupo?

Foto: Pedro Cela/202B
Foto: Pedro Cela/202B

Pedro Cela: A gente tinha se entrado há pouco tempo na universidade e costumava se reunir no apartamento 202b, que ficava num simpático prédio na Aldeota. Nós criamos esse grupo com o intuito de estudar e começar a por em prática o que nos interessava naquele momento (cinema, quadrinho, fotografia, desenho). Nós
compartilhávamos os saberes e, juntos, íamos estudando, apreendendo e dando vazão ás nossas ideias, principalmente através da fotografia e do vídeo.
Esse “grupo de estudo” fora ficando cada vez mais sério, e hoje nós fizemos três curtas, alguns ensaios fotográficos, fizemos alguns vídeos institucionais, estamos em processo de pesquisa para filmar outro curta, e fomos convidados a trabalhar num projeto chamado “Esticadores de Horizontes”. Quem quiser pode ver alguns desses trabalhos e conhecer mais sobre o 202b no nosso site: www.202b.net.

 

SN: O trabalho de vocês é visual. O processo criativo nessa modalidade é mais fácil por vocês poderem visualizar o resultado que procuram?

PC: Não acho que o audiovisual seja mais fácil que outros processos criativos. Na verdade é complicado fazer essa comparação, sabe? Quem está disposto a fazer um filme ou escrever um livro, por exemplo, precisa estudar pra dominar algumas áreas de conhecimento para poder criar. Tem que ter dedicação e saber o que quer.

SN: O Becco do cotovelo é um dos pontos turísticos de Sobral mais conhecidos, principalmente pela diversidade de personagens que transitam pelo local. Por que vocês acham que o Becco é tão importante para a cidade?

PC: Ah, eu acho que o filme pode responder melhor essa pergunta por mim.
Mas um fator que me instigou a fazer o curta é que o Becco faz parte da minha memória afetiva, assim como de muita gente em Sobral. Durante a minha infância eu ia muito ali pelo centro. Minha avó tem um cartório bem perto do Becco, meu pai foi secretário de cultura de Sobral e sempre teve uma atenção e cuidado com patrimônio histórico da cidade. Ele foi o responsável pelo tombamento do centro histórico de Sobral. Nesse período, eu costumava acompanhar o trabalho dele de perto. Visitava a Casa de Cultura, o teatro São João, a Casa do Capitão Mor, o Museu Dom José, a igreja da Sé, a biblioteca Lustosa da Costa, o Largo das Dores e, claro, o Becco do Cotovelo que há muito tempo, antes mesmo de eu nascer, é o palco de muitos acontecimentos políticos, culturais e históricos de Sobral.

Foto: Becco Do Cotovelo/ 202B
Foto: Becco Do Cotovelo/ 202B

SN: Já foram realizados alguns documentários sobre o Becco. Como foi fazer mais um documentário, novo e diferente dos que já existem?

PC: Como não podíamos ficar durante toda a semana devido às aulas e outros trabalhos, nós filmamos em três fins de semana. Eu já conhecia o Becco, sabia quais seriam os possíveis lugares mais interessantes pra filmar. Mas mesmo assim, ainda me surpreendi com as histórias que escutei. Ficávamos o dia inteiro no Becco. Conversando com o povo e observando o dia a dia do Becco, os transeuntes, o movimento nas lojas, nos cafés, na barbearia. Nós tínhamos um roteiro mais como um guia, entende? Nós não seguimos ele a risca. A gente deixava o acaso ir conduzindo o filme.
Acho muito difícil alguém fazer um filme igual ao outro. A tendência é sempre sair diferente, mesmo se o assunto do filme for o mesmo.

SNO documentário Becco do Cotovelo vai ser exibido no Festival de Cinema em Portugal. Qual é a sensação de ser representar o Ceará, e o interior do Estado, em um festival tão importante?

PC: O “Becco” será exibido na programação Primeiro Olhar, no Festival Encontro de Cinema de Vianna. Eu me sinto alegre por alguns motivos: o primeiro é que o curta ser aceito em festivais e mostras significa que as pessoas gostaram e querem ver um filme que a gente fez. Isso me dá ânimo pra seguir em frente. O segundo é que o filme é recorte de Sobral, sendo exibido pelo Brasil e, nesse caso, em Portugal. O que me leva a pensar o que do regional tem no universal? O que Os povos, de diferentes regiões, têm de similares? Essa é uma pergunta que me interessa.

SN: Como vocês veem o cenário independente do cinema no Ceará: está ganhando mais espaço ou ainda existe preconceito com as obras feitas aqui, principalmente no interior?

PC: Bem, eu não gosto de usar a palavra independente. Não consigo imaginar alguma coisa 100% independente. A gente sempre depende de alguém, nem que seja daquele amigo que topou fazer o projeto sem ganhar nenhum real por isso ou de quem financiou todo o projeto.
Tem muita gente boa fazendo filmes aqui, sabe? O Germano de Sousa, por exemplo, fez um filme chamado Sal, Duna e Lamparina, praticamente sozinho;
O Arthur Leite acabou de ganhar um prêmio no festival.

É Tudo Verdade, o Coletivo Nigéria tem um trabalho que eu gosto, e aprovou recentemente um projeto de um documentário no edital Itaú Rumos. Tem muita gente produzindo filmes. Se eu fosse citar aqui sairia uma lista grande. Para exibir toda essa produção, tem alguns cineclubes, pequenas mostras e festivais como o Noia. Tem, também, o Cine São Luiz e o cinema do Dragão do Mar, que exibem filmes cearenses.

Apesar de eu achar que vem melhorando, o público que se interessa por assistir um filme daqui ainda é bem pequeno. Poucos são os filmes cearenses que lotam uma sala de cinema, mais ai já entram outras questões.

Assista ao teaser do documentário Becco do Cotovelo:

Teaser – Becco do Cotovelo from 202B on Vimeo.

Sinopse: Becco do Cotovelo é um filme que retrata o movimento de um tradicional beco no centro de Sobral-CE, construído a partir de encontros e de observação das pessoas que transitam e ocupam o lugar.
Produto: Documentário
Duração: 25min
Ano: 2015
Direção, fotografia, som, edição e montagem: Pedro Cela e Eduardo Cunha
Still: Saulo Tiago
Tradução Espanhol: Carolina Avinceta
Legendagem: Eduardo Cunha

Leonardo Martins

Especial para o Sobral News

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